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Um desconhecido na Terra

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Apenas duas ou três cadeiras estão vazias! Sou a única pessoa com menos de 60 anos, a única que lê livros, e a única a quem ninguém conhece o nome. É a terceira vez que entro na pastelaria, e em todas as visitas os holofotes acenderam e todos os meus gestos passaram a ser observados, analisados, escrutinados. Sou um desconhecido na Terra! Oiço alguém contar histórias «Desse tempo que não havia internet e telemóveis...», apuro o ouvido, mas a televisão deve estar no máximo e acabo por perder o fio à meada. Já sei que daqui a uns minutos começam aqueles programas onde são colocadas, numa casa vigiada, pessoas da alta classe, intelectuais de renome, da sociedade portuguesa, e que valem tanto a pena ver que mais vale arrumar as coisas. Quem vem para uma vila pequena, rodeada por montes que tapam o sol, obviamente que deixa o computador em casa, e se esquece que a bateria do telemóvel não é eterna. Certo? Sempre a mesma história! Mas existe um espaço com internet, e vou até lá... ...

Os nomes das Ruas

Andei entre livros antigos poucas vezes folheados. Andei à procura de histórias, mas poucas foram as que encontrei. É certo que li sobre as noites em branco na urgência de encontrar novos nomes aquando das mudanças dos regimes, ora eram os Dons que tinham de desaparecer, ora era o Salazar que precisava de ser esquecido. De salvadores da pátria, amados senhores, rapidamente passaram a memórias que nem as ruas podiam invocar, porque há quem diga que não devem voltar. Não devem voltar, mas voltam, porque a história tal como o mundo anda à volta de si própria e de uns quantos conceitos que todos juntos funcionam como o sol, diria eu, significam poder. Diria eu… E as histórias que marcam essas ruas ficaram caladas nas pedras. E a minha curiosidade só é saciedade pela fertilidade da minha mente. Já a imaginação toponímica não era famoso no passado, descobri que em todas as terras existia a Rua Direita. Direita porque cortava a direito as pequenas terriolas no seu meio? Eram as ruas prin...

Já não são nossos os poemas

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Já não são nossos Os poemas. Das noites lágrima, Do desespero. Quando o teu sussurrar Desacreditava os felizes. Incrédulo Perante um homem. Já não são nossos  Os poemas. São da perfeita solidão Enganada por corpos nus. São meus  e de um nada Onde a água os corre e recita. Já não são nossos, Os poemas! e nós sem nunca o ser! 

Inconfidências

Um olho Toma conta da menina de fios avariados. Menina pequena, surda, muda. Apanha pedrinhas do chão e facas de cozinha cravadas nas mãos. Não corta, não dói, não fura, não sente. Menina que nasce sem sentir, a lâmina, o frio, o dente, o quente. Menina que nasce sem ser gente. Olho que chora, quer deitar menina fora.

I Ainda existem marinheiros?

Humanidade “Também eu perdi a humanidade!”, confessava o Marinheiro Vala antes de uma longa pausa. Os seus olhos continuavam a brilhar, desta vez por lágrimas que nem as mais longas décadas deixam secar. Dias mais tarde, folheando o dicionário, percebi que não se limita a definir humanidade como «o conjunto dos homens», atreve-se a atribuir-lhe características positivas. Vários foram os filósofos que também se debruçaram sobre esta questão. Confucio considerava que «Um coração misericordioso e compassivo é o princípio da humanidade» Comte, definia-a como «consistindo sempre no crescente ascendente da nossa humanidade sobre a nossa animalidade.» O dicionário, o Confucio, o Comte, o Santo Agostinho, e outros que encontrei, pareceram-me sujeitos muito ingénuos. Simplificadamente, a Humanidade seria então o conjunto de seres humanos afável, benevolente, bom, civilizado, e por aí fora. A pausa terminou, e o marinheiro continuou a sua história. “Eu sou contra a guer...

Oposição

Silêncio... Continuas sentada ao meu lado Como uma dor, que nos leva a descobrir novos músculos, Crias em mim a noção Da agilidade das minhas pernas E dos meus braços. De toda a beleza E de toda a felicidade. Das oportunidades dos meus dias. Crias em mim a necessidade De consumir a vida. Um dia continuaremos a respirar, Sem ouvidos, sem palavras, Sem sol, sem força. Consumi-la antes de lá chegar. Quero desesperadamente... Toma! Aceita! Está aqui. Está aqui um pouco dos meus olhos, Um pouco das minhas mãos, Todos os meus livros. Toma uma lupa! Ajuda? Não podes aceitar? Não podes aceitar, Eu sei. Eu sei... já nem uma lupa ajuda. Quero desesperadamente... Não posso sair do sofá. (Sou a tua melhor solidão.)

Existe uma certa decadência

Parece existir um certo gosto pelo decadente. A ilusão de estar numa dimensão paralela, ou de fazer parte do episódio de um filme. Não faltam músicas e poemas a descrever aquele pequeno bar, de portas fechadas, mas aberto para os amigos bem para lá das horas legais, onde um grupo de pessoas alegremente alcoolizadas bebe as últimas horas da madrugada como se fossem as últimas gotas de vida. Começamos por nos sentir privilegiados por poder entrar. Depois importantes porque o dono já nos cumprimenta e chama pelo nome. E por fim, confiantes, enquanto flutuamos ao som da música, inventamos danças com os amigos e recebemos olhares de estranhos. É impossível manter a sobriedade, mesmo quando os níveis de álcool são baixos, mas por breves instantes abrem-se bem os olhos e observa-se: O dono tenta fechar a tasca, mas não resiste a por mais uma música e vislumbrar os sorrisos dos clientes mais que habituais. Sabe que não tem apenas um bar, mas a segunda, ou até primeira sala dos frequenta...