Os nomes das Ruas
Andei entre
livros antigos poucas vezes folheados. Andei à procura de histórias, mas poucas
foram as que encontrei. É certo que li sobre as noites em branco na urgência de
encontrar novos nomes aquando das mudanças dos regimes, ora eram os Dons que
tinham de desaparecer, ora era o Salazar que precisava de ser esquecido. De
salvadores da pátria, amados senhores, rapidamente passaram a memórias que nem
as ruas podiam invocar, porque há quem diga que não devem voltar. Não devem
voltar, mas voltam, porque a história tal como o mundo anda à volta de si
própria e de uns quantos conceitos que todos juntos funcionam como o sol, diria
eu, significam poder. Diria eu…
E as
histórias que marcam essas ruas ficaram caladas nas pedras. E a minha
curiosidade só é saciedade pela fertilidade da minha mente. Já a imaginação
toponímica não era famoso no passado, descobri que em todas as terras existia a
Rua Direita. Direita porque cortava a direito as pequenas terriolas no seu
meio? Eram as ruas principais, são muitas vezes agora pequenas ruelas cheias
dessas histórias esquecidas. Ali se deviam encontrar olhares que envergonhados
se procuravam mais tarde entre paredes mais discretas, ali se devia dizer “Olá”
aos poucos senhores doutores, ali as donzelas passavam com os seus vestidos
bordados, e as criadas compravam as hortaliças para o almoço. Que nestas terras
que conheço existiam donzelas, princesas e até rainhas. Que neste país as
rainhas mandavam construir cidades, como mandou D. Leonor construir a minha.
Rua Direita, a rua da gente que tudo sabe, que até endireitava a vida dos
outros, a sua é que não havia meio. Que este país não está direito, poucas
vezes esteve, e duvido se virá a estar. Alguém o terá percebido que as Ruas
Direitas passaram de moda.
Intrigam-me
mais outros nomes. “Saudade”. Li por aí que descreve o povo português, temos
saudade do que passou, do que tememos que não volte. Como os homens que
descobriram o Brasil e não voltaram, os seus ouros não voltarão também, mas
ninguém se convence disso. Afinal ainda se espera D. Sebastião. Mas desses não
quero eu saber. Prefiro deter-me nas histórias das pessoas.
Helena, tal
como Nazaré brincavam correndo a Rua da Saudade de baixo a cima, e de cima a
baixo. Vizinhas, não tinham permissão para sair da vista das tias, a não ser
quando tinham de ir comprar ovos. Crescerem e tornarem-se belas raparigas não
lhes alargou muito a corda, que as tias de medo que algum malandro lhes
arrastasse as asas enviavam os irmãos mais pequenos comprar ovos e as raparigas
pouca ordem tinham para mais que ir ao terço e à missa. Mas as belezas e as
raridades não se conseguem esconder por muito tempo, e não tardou a que os
rapazes da cidade começassem a atalhar pela rua das duas jovens, e alguns se
tornassem ferozes católicos assim que descobriram a que dias as meninas rezavam
as dezenas na igreja velha.
Lá dois
sortudos foram aprovados pelas tias. Helena teve sorte, Jaime era um bom moço,
que até lhe escrevia uns poemas, e a pegava pela cintura com garra de homem
apaixonado. Nazaré não se valeu do mesmo, a tia não tinha tido olho para o seu
marido, nem tão pouco aprendido com a lição, escolheu para a sobrinha um
fraquinho rapaz, que cravado de inseguranças afogava-se no álcool e nem para
bater como um homem servia.
Quando os
dois partiram para o mar, com a promessa de voltar com mais uns trocados, já
ambos os casais se tinham mudado para a Rua da Esperança. Mas as esperanças não
podiam ser mais diferentes, que Helena que estava mesmo de esperanças e
carregando um filho do amor, esperava todos os dias que Jaime voltasse. Já
Nazaré, depois de ver o seu António partir mar adentro de esperança só a de que
ele não voltasse e que o vizinho Amaro não se cansasse de lhe aquecer a cama. E
por vezes a vida lá concede uns desejos e Jaime voltou, só que António também.
Jaime voltou para ser pai, e António para ser corno. Cansado da triste posição
em que se encontrou e sem forças para enfrentar o vizinho num duelo de homem
para homem, lembrou-se das mulheres da vida lisboetas e voltou com o rabinho
entre as pernas e os cornos abaixados, para a capital.
Podia-me dar
para histórias românticas, e deixar-me de mexeriquices, mas quantas mulheres
não esperaram pelos seus maridos, e quantas não rezaram para que fossem morrer
longe.
Que a
história dá voltas e voltas, mas volta sempre ao mesmo sítio. Que o ser humano
inventa tudo e mais alguma coisa, mas para os bens e para os males do amor, não
há cura nem remédio. E se de política não queremos falar, que para desgraça já
basta ter de descer a Avenida da Liberdade todo o santo dia, e de desgraça
também não estamos para aí virados, o que nos sobra mais que os Fortúnios e
infortúnios do amor.
Passe bem e
até à próxima, que eu vou continuar a andar e a imaginar.
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