Esperam-na
(como todos os dias)
O banco de madeira
E as nove sacas
(não gosta do número par).
Atenta na hora certa,
Ainda noite de chá na mão,
Acalma as dores
Do movimento mecânico.
(Tem dedos grossos

Sempre enrugados)
Senta-se,
Tira a navalha do bolso do avental


Abre o molho mais próximo
E tira a primeira do dia:
Redonda e grande,
Abraçada pela sua mão
Cor de terra.
Começam os primeiros minutos
De horas de orgulho,
A primeira pele,
Todas até ao branco
Límpido e cru
Do seu interior.
As primeiras lágrimas
Ainda antes do primeiro corte.
Os olhos ardem
(Como todos os dias,
A todas as horas.)
Não tenta evitar a água
A desenhar riscos na sua cara,
É com seriedade
A mulher
A servir a cidade!
De estranho ofício
Não se poupam nas vénias,
Todo o senhor
Corre pelo seu serviço.
Podia sorrir, agradecer,
Mas só sabe cortar,
Sempre com mais afinco,
Com mais rigor.
Em casa, o hábito
Leva a mão a procurar.
Em dia de descanso,
De tanto cortar,
Já só sabe chorar
.

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