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Ainda existem marinheiros? II Memórias do Oriente

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Oriente Ai, o Oriente… Em Dili, três marinheiros num bote a largar ao tempo a saudade perdidos na muralha de coral. Por terra, à sombra de um coqueiro, na boca, ainda o sabor a mulher, esperávamos a maré passar. Macau, Timor, Austrália, E o Pacífico, a fazer de espelho ao ceú. De navio rumo a Darwin cheio de espanto num manto alaranjado, vi o mar a desovar. Oriente, Ai, o Oriente… Lá, Pesquei camarão em terra, Cacei veados no mar. Susana Anastácio O presente poema é elaborado a partir das memórias partilhadas do Marinheiro Vala, ao qual agradeço a generosidade  de as entregar sem outro pedido que o de não ficarem esquecidas no fundo de um dossiê. Foto: Pôr-do-sol no Porto de Dili (de Graham Crumb, http://imagicity.com)

A História de uma história

Qual é a história de uma história? O processo que a precede? O escritor sentado ao sol na sua casa de campo (em França), enquanto contempla a paisagem diante dos seus olhos. A escritora que passeia pelas ruas agitadas da cidade (Paris, Londres ou Nova Iorque) e se deixa seduzir pelos sons e cheiros que a invadem. O pôr-do-sol a fazer crescer palavras no coração. Talvez tudo isso, cada um desses momentos já se tenha repetido mil vezes com grande sucesso. Contudo, as histórias não esperam pelo cenário perfeito, pelo momento ideal do dia e muito menos da vida, por paisagens idílicas ou grandes viagens transformadoras. Os contos, os poemas ou grandes ou pequenos livros (em tamanho e não só) não se dão a isso! É sempre possível que isto seja só um problema meu, mas a mim as ideias surgem-me a meio da noite sentada na sanita, esborrachada no metro da afamada Lisboa, enquanto conduzo o meu Seat Ibiza ou nos olhos de um desconhecido que abre a porta com um toque especial, no balneário d...

Machismo

O avental de prenda, para ela, não para ele. As dicas de cozinha, para ela, não para ele. Tens de aprender a lavar a roupa do teu marido, não da tua mulher. Quem serve à mesa,  quem se senta no topo da mesa. Ela, Ele. Quem lava a loiça no fim. Vais sofrer! És dona de casa, jamais são donos de casa. A casa vai-te dar muito trabalho, jamais a casa vai dar-vos muito trabalho. Tens de te habituar. Aguenta-te! Ser mulher é assim. Quem faz é a mãe. Tens muita sorte que ele sabe cozinhar. Tens muita sorte que ele te ajuda. Tenho tanta sorte que ele me ajuda! Ah, mas ele até me ajuda. Ah, mas ele até limpa a casa. Ah, mas demora tanto... ah, mas ele não está habituado. A criança que é responsabilidade da mãe. Porque é que o jantar ainda não está na mesa? Mas é que ele não sabe cozinhar. É que ele não está tão à vontade com o bébé. Ah, é que ele anda stressado. Os trabalhos de casa que são responsabilidade da mãe. Os olhares de lado quando a...

"A dor vem, e vai"

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Se o Ludgero me ensinou algo desde pequenina, como não me canso de repetir, foi a apreciar as pequenas boas coisinhas da vida, as pequenas conquistas... bem, apreciar é pouco, a pular com estas coisas, a ficar de lágrimas nos olhos, falar delas sem fim. A celebrar a vida a cada dia! E sempre que me vou a esquecer, ele faz questão de me relembrar. Ontem, enquanto faziamos yoga, ele começou a rir. Como eu já estava a sentir os braços a arder, perguntei-lhe, "Estás a rir porquê?" "Nada!" "Tens dores?" "Um pouco." [Pára tudo! Há anos que o Ludgero se recusa a dizer que tem dor. O racicíonio na sua cabeça é este: Dor - MAU - Não queremos coisas más. - Não posso ter dor. - Não tenho dor. Então, todo este tempo, sempre que desconfiámos que ele poderia ter alguma dor tínhamos de inventar as melhores estratégias e perguntas para conseguirmos perceber, sempre só mais ou menos, o que se passa.] Fiquei parada, já surpreendida, quando o Ludgero re...

O meu (1º) Dia da Mulher

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Nunca assinalei o dia da mulher! Não queria receber flores, e chegou a parecer-me mais uma boa justificação comercial. Sentia-me longe tanto da ideia de juntar as amigas e ir jantar, como das formas de luta feministas. Eu que sempre achei que as mulheres são diferentes dos homens, e que falar de igualdade era um conceito demasiado simples num contexto tão complexo. Nunca celebrei o dia da mulher! Por tudo isso, e porque nunca gostei de ser mulher. Não era uma maria-rapaz, mas claramente que tinha mais amigos do que amigas. Não queria ter o período, não queria ter maminhas. Nunca quis ser um rapaz verdadeiramente, mas também nunca quis ser uma rapariga. Ensinaram-me que era uma menina, mas não que podia gostar de ser uma menina. E depois toda a educação cultural, e das avós, das vergonhas… Foram precisos uns anos para me aperceber disto. Foi preciso contactar com muitas pessoas, com ideias diferentes, com conceitos mais elaborados, para eu perceber: Que hoje é dia de assin...

Santiago de Compostela

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Foi apenas há 5 meses fiz o caminho português para Santiago, e já parece ter sido numa outra vida. Apesar disso, está mais presente do que nunca, talvez devido à chuva intensa e à impossibilidade de calçar as botas e fazer longas caminhadas me chegue a nostalgia, e comece a reviver a viagem.

Rural stories: torce e distorce

Sobre o morto: "Há uns anos deixou de comer carne. Ficou doente. E morreu!"

Rural Stories - Alentejo

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Alter do Chão, 29 de Agosto de 2015 Levo comigo alguns momentos e lições desta pequena viagem. Compreendo agora o romantismo em que está envolvida a minha ideia de Alentejo, de fuga e refúgio.  Quando subimos a Alter Pedroso deparei-me com uma imensidão plana de 360º, sem ouvir qualquer som, sem edifícios, apenas algumas árvores, alguns animais, pequenos lagos. Esvaziei!