Santiago de Compostela

Foi apenas há 5 meses fiz o caminho português para Santiago, e já parece ter sido numa outra vida. Apesar disso, está mais presente do que nunca, talvez devido à chuva intensa e à impossibilidade de calçar as botas e fazer longas caminhadas me chegue a nostalgia, e comece a reviver a viagem.


Não são poucas as vezes em que passo pelas situações como se estivesse apenas a pairar sobre elas e só com o tempo as deixo materializar. As dores que na altura ignorei voltam agora, mais fortes, quando toco nos ombros e me apercebo da sua ausência. Tenho saudades das dores e do cansaço que me atiravam para a cama e me faziam dormir profundamente, algo que raramente acontece por estes dias.

A chuva que cai, essa faz-me pensar na força de vontade, no desejo de cumprirmos as nossas metas, de continuar a caminhar e repetir todo um ritual que nos permitia algumas horas secas, e umas botas quentinhas para o dia seguinte. Também me faz pensar nos sítios onde não parei para os sentir por cair tanta água, ou de situações cómicas, como a minhas incursões pela cidade de Redondela cheia de casacos, mas de calças arregaçadas e um chinelo que caía a cada 5 passos, tão molhados e escorregadios estavam os meus pés, porque as botas tinham de secar para o dia seguinte, mas era preciso encontrar comida. 
Situações divertidas pelas viagem não faltam para relatar. Algumas só à distância se tornam engraçadas, como a noite em que não preguei olho porque um dos senhores do quarto dormia de olhos abertos. Ou os ciclistas, que achando que éramos espanhóis arriscaram uns piropos, e a espanhola que engraçou com o meu namorado e me tentou destruir com o poder do olhar, e a francesa que ao andar ia fazendo "Tuc, tuc, tuc!".




Revisito várias vezes as pessoas com quem me cruzei, e que sem dúvida marcaram a viagem. As nossas companheiras de viagem, a Sofia e a Maria, duas senhoras fantásticas com quem partilhámos a máquina de secar-roupa, planos de viagem, os quartos, e que mais cedo ou mais tarde encontrávamos sempre pelo caminho. O "patrão" e a filha, um senhor polaco com os seus 70 anos, sempre o primeiro a levantar-se da cama e sair do albergue, e o primeiro a chegar ao próximo, que chegada a hora de recolher apagava a luz sem fazer cerimónias, que não dizia uma palavra de outra língua que não fosse o polaco, mas que nos presenteava com doces sorrisos, e músicas trauteadas pelo caminho ou enquanto descansava na sua cama.



O senhor Juseppe, que depois de o termos vista apenas uma vez, nos abraçou em Santiago, chamando-nos de "amigos" e nos salvou a vida, deixando-nos ficar numa cama de casal no seu quarto do albergue, num sábado de setembro em que Santiago transbordava de peregrinos e já não havia hotel para o nosso bolso.
O Ricardo e a Joana que encontrámos mais tarde num voo que fizemos de S. Miguel para Lisboa. E tantas outras pessoas a quem desejávamos sempre "Bom caminho!", todos seguindo as setas amarelas, para o mesmo destino físico, mas certamente com objetivos muito diferentes.





O meu principal objetivo era encontrar calma, queria parar, meditar, escrever. A tempestade durou 5 dias e não o permitiu, por isso, ainda bem que mantenho sempre expectativas bem modestas relativamente a cada viagem. O outro era a superação. Bem sei o quanto reclama o meu corpo sempre que pego em algo pesado, quanto mais fazer 40km com 11 kg às costas num dia. E fiz! Somos todos capazes de muito mais do que aquilo que imaginamos.

No fim não me pareceu nada do outro mundo, ansiando sempre por uma aventura maior. Mas senti uma paz imensa, não em forma de luz, mas de vazio, de alguém que por alguns dias não pensou na roupa que vestir, não procurou por emprego em frente a um computador, nem se preocupou com a opinião que os outros têm sobre a sua forma de estar na vida. O vazio bom de quem procurou o caminho até ao próximo abrigo, para quem um prato de comida e umas botas secas se tornou a maior dádiva, de quem não se preocupou com "quem quero ser?", mas com "quem sou hoje!".
Talvez no fim não se encontrem grandes respostas espirituais, talvez não se procurem milagres, talvez o caminho seja apenas uma forma de voltarmos à raiz daquilo que somos.

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