Um desconhecido na Terra


Apenas duas ou três cadeiras estão vazias! Sou a única pessoa com menos de 60 anos, a única que lê livros, e a única a quem ninguém conhece o nome. É a terceira vez que entro na pastelaria, e em todas as visitas os holofotes acenderam e todos os meus gestos passaram a ser observados, analisados, escrutinados. Sou um desconhecido na Terra!

Oiço alguém contar histórias «Desse tempo que não havia internet e telemóveis...», apuro o ouvido, mas a televisão deve estar no máximo e acabo por perder o fio à meada. Já sei que daqui a uns minutos começam aqueles programas onde são colocadas, numa casa vigiada, pessoas da alta classe, intelectuais de renome, da sociedade portuguesa, e que valem tanto a pena ver que mais vale arrumar as coisas.

Quem vem para uma vila pequena, rodeada por montes que tapam o sol, obviamente que deixa o computador em casa, e se esquece que a bateria do telemóvel não é eterna. Certo? Sempre a mesma história! Mas existe um espaço com internet, e vou até lá... matar o vício, tal fumador. As notas da faculdade ainda não saíram! Bem me parecia que os prazos continuavam a ser algo relativo...

O senhor responsável pelo espaço aproxima-se, sem um olho e sem ar de pitrata. Começo a desculpar-me (não sei bem de quê!), ao que ele atenciosamente responde:
- Não hã problema nenhum, mas agora é a “Hora do Avô”, e nós precisamos dos computadores.
Entraram os avôs e as avós, e eu saí (a sorrir, confesso!).


Vim para um bar de jazz, beber galões para aquecer as mãos, e ler. À tarde, se me der a coragem de enfrentar o frio, vou seguir as placas que dizem “Caminho do Pastor.”

Fevereiro, 2015

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