Existe uma certa decadência
Parece existir um certo gosto pelo decadente. A ilusão de estar numa dimensão paralela, ou de fazer parte do episódio de um filme.
Não faltam músicas e poemas a descrever aquele pequeno bar, de portas fechadas, mas aberto para os amigos bem para lá das horas legais, onde um grupo de pessoas alegremente alcoolizadas bebe as últimas horas da madrugada como se fossem as últimas gotas de vida.
Começamos por nos sentir privilegiados por poder entrar. Depois importantes porque o dono já nos cumprimenta e chama pelo nome. E por fim, confiantes, enquanto flutuamos ao som da música, inventamos danças com os amigos e recebemos olhares de estranhos. É impossível manter a sobriedade, mesmo quando os níveis de álcool são baixos, mas por breves instantes abrem-se bem os olhos e observa-se:
O dono tenta fechar a tasca, mas não resiste a por mais uma música e vislumbrar os sorrisos dos clientes mais que habituais. Sabe que não tem apenas um bar, mas a segunda, ou até primeira sala dos frequentadores mais regulares.
Os dj's já estão rodeados de fãs temporárias. Atrevem-se a trocas de palavras. Confiam num poder que tem tanto de ilusório como de real e insignificante. E no fim da noite poucos reparam que não saíram sozinhos, nem acordarão sozinhos.
As raparigas sobem ao trono enquanto dançam, esboçam sorrisos e não sabem que força mantém os seus pés em movimentos. Sabem que são o centro dos olhares que fingem ignorar, e que mais tarde repudiam.
Existe uma certa decadência, um certo álcool, um certo cheiro a tabaco. No dia seguinte, em frente ao espelho olha-se a decadência nos olhos, cheira-se ao longe a decadência.
Existe decadência é certo. Existe com mais força um estado de absoluta loucura e magia, que saboreia a vida com um gosto que não se encontra nos dias normais, nas pessoas normais, nas noites de sempre. Existem fios invisíveis e frágeis que ligam sem preconceitos os loucos daquele espaço pequeno, escuro, cheio de som, cheio de nada, a gravar a película de tantos filmes quantos olhos se cruzam na noite menos óbvia.
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