I Ainda existem marinheiros?

Humanidade

“Também eu perdi a humanidade!”, confessava o Marinheiro Vala antes de uma longa pausa. Os seus olhos continuavam a brilhar, desta vez por lágrimas que nem as mais longas décadas deixam secar.

Dias mais tarde, folheando o dicionário, percebi que não se limita a definir humanidade como «o conjunto dos homens», atreve-se a atribuir-lhe características positivas.

Vários foram os filósofos que também se debruçaram sobre esta questão. Confucio considerava que «Um coração misericordioso e compassivo é o princípio da humanidade» Comte, definia-a como «consistindo sempre no crescente ascendente da nossa humanidade sobre a nossa animalidade.»

O dicionário, o Confucio, o Comte, o Santo Agostinho, e outros que encontrei, pareceram-me sujeitos muito ingénuos. Simplificadamente, a Humanidade seria então o conjunto de seres humanos afável, benevolente, bom, civilizado, e por aí fora.

A pausa terminou, e o marinheiro continuou a sua história.

“Eu sou contra a guerra! E em 1962, uma semana depois de casar mandaram-me para a Guiné, combater por umas terras que não eram nossas, matar os donos daquelas terras.
Prestávamos assistência aos fuzileiros: levávamos a lancha deles atracada ao nosso navio, fundeávamos, e os fuzileiros de noite seguiam para terra. Depois de desembarcarem comunicavam para o navio, nós virávamos para lá as peças e bombardeávamos o terreno por cima deles. Assim podiam avançar.
Às vezes a minha missão era outra, ir buscar os feridos. Ia a conduzir o barco, por vezes de noite e tinha de me guiar pelos sinais da Terra, ou pelas estrelas. Tínhamos de nos desenrascar.
Certo dia, ao fazer o desembarque os fuzileiros encontraram um campo de minas... Coube-me ir buscar os feridos, e transportá-los até ao barco. Fui buscar um marinheiro com uma perna completamente desfeita, tivemos de colocar um garrote para o homem não se esvair em sangue na viagem. Foi muito duro chegar ao barco. E fui ainda buscar um sargento fuzileiro.”

Desta vez o marinheiro não parou para pensar, ou para lembrar. Engasgou-se nas palavras: “Era cabeça para um lado, pernas para o outro... São as coisas más que trazemos desta vida, e hoje, passados tantos anos ainda me causam tristeza.”

Senti novamente o seu medo em contar as histórias da guerra. Existe uma dimensão na tristeza, que ultrapassa quem apenas ouve, quem apenas lê. Ganhou coragem, e prosseguiu:

“A bordo do navio havia um miúdo preto, que andava estudar. Eu era o responsável e gostava muito dele! A minha mulher até lhe chegou a fazer umas botinhas.
Às vezes eu pensava,"Como é que pode ser os fuzileiros mostrarem-me fotografias, todos contentes, com a cabeça de um preto metida num sabre? Como é que pode ser? Onde está a cabeça desta gente?"
Ainda hoje penso assim, mas há determinados momentos e determinadas passagens da vida, em que nos esquecemos, perdemos a humanidade, deixamos de ter coração. Quando fui buscar aquele sargento morto, bocado para um lado, bocado para o outro... Durante dois dias não podia ver o miúdo à frente.
Fui sempre contra as guerras coloniais, não tínhamos nada de ir matar as pessoas daquelas terras, que eram deles! E depois quando me aconteceu isto, não conseguia ver o miúdo... Os outros se calhar também tinham coração como eu, e naquela altura perderam-no, deixaram de ser pessoas.”

Arrisco-me a dizer que a humanidade de um ser humano não é um estado permanente, antes uma consequência das variáveis. Arrisco-me a dizer que todos corremos o risco de deixar de ser pessoas, mesmo que intermitentemente. Arrisco-me a pensar que o conceito de humanidade apenas pode deixar de ser hipotético, ao englobar o bem e o mal.


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