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Sobre uma avó

Momentos fugazes, meros intervalos da solidão. Refeições bastas num silêncio de mortos. A vida já não é de longos passos,  Espero nada, a não ser a próxima mão que me toca. Esquecem-se os dias da semana, Esquecem-se as cores do céu. As noites seguem-se aos dias, e os dias às noites, Marcados por um breve acordar, por uma casa feita de um sofá onde se adormece vezes sem conta. Espero! Nada, apenas que a dor não cresça. Espero! E se calhar desespero, Pela morte que não desejo, ou por um milagre que não vem. As letras estão desfocadas, As pessoas são sombras. Não existe música no meu mundo, Não existe som algum! Não existe quase nada. E nos outros, a esperança que o amor alegre os meus dias.

Cicl'amor

Já sei de cor os argumentos necessários para convencer que adoro a minha vida de celibataire . Argumentos verdadeiros, e situação que prezo bastante não fazendo parte dos meus planos sair dela. Dei-me mal com os truques de flirt do sector masculino francês, sabendo, munida de provas empíricas que o conceito de vergonha é de tal forma distinto do nosso, que cinco minutos depois tive de fazer a minha “danço-fuga a mãos e beijos franceses”. Before the Sunrise , é um filme de 1995, em que dois desconhecidos passam uma noite a vaguear pelas ruas de Viena. Limitam-se a conversas sem fim, a horas intermináveis de palavras trocadas, de sonhos, de opiniões, ou palhaçadas. Vivo há muito fascinada por este filme, por este encontro, e Paris parecia ser a cidade ideal para encontrar uma história assim. Acho que nunca a quis recriar. Afinal quantas noites não passei em longas conversas com amigos ou desconhecidos? Muitas, e todas me fascinam tanto como o próprio filme. Nunca me apaixone...

Bonne chance

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Parei de escrever porque todas as frases eram tristes, porque todas as noites ficava às voltas na cama com demasiadas perguntas. Terminou há três semanas e já parece ter sido outra vida. França fez-me chorar as lágrimas que tinha em depósito para uns três anos, fez-me gritar mais do que pretendia para toda a minha vida, comer demasiado chocolate, fez-me tremer de dúvidas e de medos todas as horas. França fez-me crescer! Há muito que decidi que em qualquer momento, por pior que parecesse, eu teria de encontrar uma forma de ser feliz. Por isso fui viajar! Viajei tantas vezes quanto pude, para todos os lados. Viajei por copos de vinho, horas de conversa e cabelo encaracolado. Feliz! Agora estou sentada no sofá da casa dos meus pais, há demasiadas horas, no dia em que não apanhei o avião para voltar, e tenho saudades, não das lágrimas, mas das viagens. Os planos? Falharam-me os planos, depois do A, falhou o B, depois do B, falhou o C... até ao N, um nódulo na tireóide, que p...
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Voltar a fazer as malas foi a melhor sensação das últimas semanas.  Claro que deixei coisas necessárias "em terra", nomeadamente um par de sapatilhas. Como consequências as minhas botas novas parecem ter sido utilizadas todos os dias durantes o último ano, devido aos longos passeios em Paris. Paris é edíficios enormes a cada esquina, longas caminhadas e sandes. Paris é a cidade dos amantes e dá vontade de encontrar um novo amor ao qual dar a mão à chegada à Torre Eiffel. París é lindíssima, e diz-nos o quão grandes os franceses se vêem a si próprios. Paris respira culturas e os meus sítios preferidos foram as livrarias e a jam session de jazz na cave de um bar perto do Moulin Rouge. Ao fim de dois dias de viagem fiquei sozinha. A solidão no meio da múltidão: a minha primeira lição de viagem foi que a solidão me deixa tímida, nervosa e com vontade de voltar a um lugar seguro. Não me safei assim tão mal, fiz dois "amigos" e arranjei mais uma casa onde dormir...

Metro Journeys - Paris

(Algures em França ou na Suiça.) Quatro meses depois voltei ao metro.  Estar numa grande cidade significa sempre voltar a descer para aquele local onde toda a variedade de seres humanos se mistura e aperta em carruagens, que os conduzem aos mesmos locais, mas certamente a diferentes destinos. Tal como em Lisboa fugi tanto quanto pude das incursões subterrâneas, o que me levou a longuïssimas caminhadas à superfície. Ainda assim, em cinco dias consegui aumentar consideravelmente o número de ocorrências registadas: tentativa de assalto (à minha colega de viagem), uma jovem senhora extremamente alcoolizada a "pintar" o chão, mulheres asiáticas a cantar e às quais acredito davam dinheiro, acredito eu, mais com a intenção de as calar do que por sentimentos de caridade, enfim! Paris tem muito louco, debaixo de terra e ao ar livre. E eu tenho um pouco de louca também. Assim que um músico do metro entrou na carruagem segurando um acordeão a Zoe olhou para mim com ar de ...

River stories: Desventuras

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O objectivo é fazer ou visitar algo novo todos os fins-de-semana, o que não estava nos meus planos era que todos os meus planos resolvessem não funcionar. 1º fim-de-semana: Sully Carro novo, depósito novo - meto a chave e o depósito não abre. Olho para as horas, "Já devíamos estar a caminho!" Volto a tentar e nada. Antes de ir a casa pedir ao pai da host family para me ensinar a abrir o depósito, aposto em como em três segundos ele o vai abrir. Afinal era só fazer força, e lá partimos. 2º fim-de-semana: Briare Depois de uma noite de ócio em frente à televisão, é difícil pôr as pernas a trabalhar, mas a promessa do melhor chocolate quente de França põe-nos a mexer. Quando chega a hora de sair de casa, o Puky, o cão surdo e meio cego da host family resolve andar 20 minutos a correr a volta do carro, e fugir do quintal. Mais uma vez é hora de por gasolina, e como a dor na carteira não é suficiente, ainda me consegui enganar e por a gasolina errada. 3º...

River Stories: a mala de viagem

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E tu, o que levas na bagagem? Despreocupada, esquecida, desconcentrada. Devem existir inúmeros adjectivos que me possam ser atribuídos quando toca a fazer malas. Nunca pus na lista um corta-unhas, não trouxe escova do cabelo, nem pares de meias para mais de três dias. Ao fim de uma semana de calor chega o frio, e descubro que as seguintes palavras, "Tenho imensa roupa-" são pura inocência minha. Será que perdi roupa pelo caminho? Não consigo descobrir, mas sei que já ando a passar frio. Mas nós também somos uma mala, cheia de bagagem, a transbordar de bagagem. Podemos pensar que ao ir para longe deixamos para trás todas as histórias mal resolvidas, os sentimentos, os problemas, as pessoas. Nós somos o amontoado de bagagem, a boa, a má, e não existe começar do zero, nunca voltaremos ao zero. Não me dei ao trabalho de tentar despejar a mala, sabia que ela viria cheia, por mais esforços que pudesse fazer. Cheia de coisas boas, que me aquecem o coração nos dias mais difíce...