Mensagens

À escuta

Imagem
Uma voz perdida ocupa todo o espaço. Não declama não representa hesita a vida. E cores esbatidas em quadro nocturno fundem-se      trémulas já não vale existir. Sobram os poemas as madrugadas e um quarto imóvel, como nós, à escuta. Susana Anastácio @tibudo

Ainda existem marinheiros? II Memórias do Oriente

Imagem
Oriente Ai, o Oriente… Em Dili, três marinheiros num bote a largar ao tempo a saudade perdidos na muralha de coral. Por terra, à sombra de um coqueiro, na boca, ainda o sabor a mulher, esperávamos a maré passar. Macau, Timor, Austrália, E o Pacífico, a fazer de espelho ao ceú. De navio rumo a Darwin cheio de espanto num manto alaranjado, vi o mar a desovar. Oriente, Ai, o Oriente… Lá, Pesquei camarão em terra, Cacei veados no mar. Susana Anastácio O presente poema é elaborado a partir das memórias partilhadas do Marinheiro Vala, ao qual agradeço a generosidade  de as entregar sem outro pedido que o de não ficarem esquecidas no fundo de um dossiê. Foto: Pôr-do-sol no Porto de Dili (de Graham Crumb, http://imagicity.com)

O Bretão

Imagem
Mãe Pedra, Pai Rocha,  Mar Bretão. Furiosas noites de furioso rum: "Bravos marinheiros!" Uívos de arrasto de lutas no fundo do mar. Dias de orgulho, numa terra que não era sua, num pai que não viu nascer: ["Mãe, ó mãe e se eu não puder salvar ninguém?"] Inventor de línguas criador de sonhos, em terras longínquas da história esquecida. Ressuscita na seiva da planta, Aquele que no mar morreu. Susana Anastácio Abril 2015 Foto: Tempestade na Bretanha

A Arte de Saborear

Imagem
Ontem lia a Arte de Viajar , de Alain do Botton, que começa por nos dizer algo como: a viagem não vai ser tão boa quanto pensas, nada é tão bom quanto imaginas... Fechei o livro e repensei os últimos dias que passei a viajar. Tive medo do carro que apareceu durante a noite, e dos cães que insistiam em fazer visitas perto da tenda. Ainda tenho borbulhas nas pernas, por causa causa dos mosquitos, e passei mal com o sol do meio-dia. O tempo não chegou para todos os planos, e o meu corpo ainda pede mais descanso do que o normal. Todas as manhãs me sentei na mesma rocha, a entrar no rio, com os pés descalços enquanto lavava os dentes. O gesto mais banal, repetido três vezes ao dia em frente ao espelho da casa-de-banho, pareceu-me o momento mais revelador. Tentei ouvir o rio, no sentido de Siddhartha, mas é difícil calar a mente. Tirei os pés da rocha e mergulhei-os na água gelada para me aproximar da paisagem. O som da água, as cores das árvores, o quente da minha camisola...

Um desconhecido na Terra

Imagem
Apenas duas ou três cadeiras estão vazias! Sou a única pessoa com menos de 60 anos, a única que lê livros, e a única a quem ninguém conhece o nome. É a terceira vez que entro na pastelaria, e em todas as visitas os holofotes acenderam e todos os meus gestos passaram a ser observados, analisados, escrutinados. Sou um desconhecido na Terra! Oiço alguém contar histórias «Desse tempo que não havia internet e telemóveis...», apuro o ouvido, mas a televisão deve estar no máximo e acabo por perder o fio à meada. Já sei que daqui a uns minutos começam aqueles programas onde são colocadas, numa casa vigiada, pessoas da alta classe, intelectuais de renome, da sociedade portuguesa, e que valem tanto a pena ver que mais vale arrumar as coisas. Quem vem para uma vila pequena, rodeada por montes que tapam o sol, obviamente que deixa o computador em casa, e se esquece que a bateria do telemóvel não é eterna. Certo? Sempre a mesma história! Mas existe um espaço com internet, e vou até lá... ...

Os nomes das Ruas

Andei entre livros antigos poucas vezes folheados. Andei à procura de histórias, mas poucas foram as que encontrei. É certo que li sobre as noites em branco na urgência de encontrar novos nomes aquando das mudanças dos regimes, ora eram os Dons que tinham de desaparecer, ora era o Salazar que precisava de ser esquecido. De salvadores da pátria, amados senhores, rapidamente passaram a memórias que nem as ruas podiam invocar, porque há quem diga que não devem voltar. Não devem voltar, mas voltam, porque a história tal como o mundo anda à volta de si própria e de uns quantos conceitos que todos juntos funcionam como o sol, diria eu, significam poder. Diria eu… E as histórias que marcam essas ruas ficaram caladas nas pedras. E a minha curiosidade só é saciedade pela fertilidade da minha mente. Já a imaginação toponímica não era famoso no passado, descobri que em todas as terras existia a Rua Direita. Direita porque cortava a direito as pequenas terriolas no seu meio? Eram as ruas prin...

Já não são nossos os poemas

Imagem
Já não são nossos Os poemas. Das noites lágrima, Do desespero. Quando o teu sussurrar Desacreditava os felizes. Incrédulo Perante um homem. Já não são nossos  Os poemas. São da perfeita solidão Enganada por corpos nus. São meus  e de um nada Onde a água os corre e recita. Já não são nossos, Os poemas! e nós sem nunca o ser!