A Arte de Saborear
Ontem lia a Arte de Viajar, de Alain do Botton, que começa por nos dizer algo como: a viagem não vai ser tão boa quanto pensas, nada é tão bom quanto imaginas... Fechei o livro e repensei os últimos dias que passei a viajar.
Tive medo do carro que apareceu durante a noite, e dos cães que insistiam em fazer visitas perto da tenda. Ainda tenho borbulhas nas pernas, por causa causa dos mosquitos, e passei mal com o sol do meio-dia. O tempo não chegou para todos os planos, e o meu corpo ainda pede mais descanso do que o normal.

Todas as manhãs me sentei na mesma rocha, a entrar no rio, com os pés descalços enquanto lavava os dentes. O gesto mais banal, repetido três vezes ao dia em frente ao espelho da casa-de-banho, pareceu-me o momento mais revelador. Tentei ouvir o rio, no sentido de Siddhartha, mas é difícil calar a mente. Tirei os pés da rocha e mergulhei-os na água gelada para me aproximar da paisagem. O som da água, as cores das árvores, o quente da minha camisola a contrariar o frio primaveril.
Voltei à tenda para largar a escova, voltei à rocha, e segui caminho. Um menino pequeno encontrou o deslumbramento, e ofereceu-me a sua prenda quando apontou para uma pedra, entre tantas do caminho, e se voltou para mim com um sorriso traquina, "Uau, olha uma pedra!" E fico fascinada pela água, e pelas variações dos seus reflexos, e pelas árvores e a gradação do seu verde, por caminhos e mais caminhos.
À noite adormeci sob a lua gigante, em cima da nossa mesa montada no chão. Acordei com o meu namorado a afastar-me os pés da fogueira que me aquecia. Voltei a enroscar-me e dei mais uma espreitadela à lua. Alain, todos os dias são bons e maus, é um tudo ao mesmo tempo, um interior e um exterior, e estes foram só uns dias, feitos de diferentes horas, e de alguns segundos: são só alguns segundos que prendem o meu olhar na lua, mas são uns segundos perfeitos.
Penedo Furado, Vila de Rei, 2015
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