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Existe uma certa decadência

Parece existir um certo gosto pelo decadente. A ilusão de estar numa dimensão paralela, ou de fazer parte do episódio de um filme. Não faltam músicas e poemas a descrever aquele pequeno bar, de portas fechadas, mas aberto para os amigos bem para lá das horas legais, onde um grupo de pessoas alegremente alcoolizadas bebe as últimas horas da madrugada como se fossem as últimas gotas de vida. Começamos por nos sentir privilegiados por poder entrar. Depois importantes porque o dono já nos cumprimenta e chama pelo nome. E por fim, confiantes, enquanto flutuamos ao som da música, inventamos danças com os amigos e recebemos olhares de estranhos. É impossível manter a sobriedade, mesmo quando os níveis de álcool são baixos, mas por breves instantes abrem-se bem os olhos e observa-se: O dono tenta fechar a tasca, mas não resiste a por mais uma música e vislumbrar os sorrisos dos clientes mais que habituais. Sabe que não tem apenas um bar, mas a segunda, ou até primeira sala dos frequenta...

Adolescência

Não digas nada Mais nada, até a noite acabar. Deixa que o silêncio te invada. Não me olhes mais, Apaga a luz, até o sol entrar Adormece na escuridão. Não quero o teu beijo, Não agora! Deixa a saudade chegar. Quero o teu amor, Num amanhã que é sempre agora Num agora que não pode acabar. Não digas nada Não gastes as palavras. Não me olhes mais, Não percas a vontade de me olhar. Não quero o teu beijo, Só por querer sempre mais.

Livros que me fazem viajar

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«As povoações do caminho eram tristes e geladas e nas estações desertas apenas nos esperavam as vendedoras de toda a vida que ofereciam pela janela da carruagem umas galinhas gordas e amarelas, cozinhadas inteiras, e umas batatas nevadas que nos deliciavam. Ali senti pela primeira vez um estado do corpo desconhecido e invisível: o frio. Ao entardecer, por sorte, abriam-se de repente até ao horizonte as imensas savanas, verdes e belas como um mar do céu. O mundo tornava-se tranquilo e breve. O ambiente do comboio tornava-se outro.» Gabriel García Marquez Viver para Contá-lo, Pág. 219 Arrancada da minha sala por um sonho lúcido vivido entre as palavras dos livros! Curiosamente, não através da literatura de viagens, mas pelos escritores do Chile e das Caraíbas, e o encanto latino que encontro nos episódios das suas próprias vidas, e nos romances que as espelham. Entre contos, romances e autobiografias, os livros latino-americanos fazem-me sempre viajar. Idealizo a minha própria...

Sobre uma avó

Momentos fugazes, meros intervalos da solidão. Refeições bastas num silêncio de mortos. A vida já não é de longos passos,  Espero nada, a não ser a próxima mão que me toca. Esquecem-se os dias da semana, Esquecem-se as cores do céu. As noites seguem-se aos dias, e os dias às noites, Marcados por um breve acordar, por uma casa feita de um sofá onde se adormece vezes sem conta. Espero! Nada, apenas que a dor não cresça. Espero! E se calhar desespero, Pela morte que não desejo, ou por um milagre que não vem. As letras estão desfocadas, As pessoas são sombras. Não existe música no meu mundo, Não existe som algum! Não existe quase nada. E nos outros, a esperança que o amor alegre os meus dias.

Cicl'amor

Já sei de cor os argumentos necessários para convencer que adoro a minha vida de celibataire . Argumentos verdadeiros, e situação que prezo bastante não fazendo parte dos meus planos sair dela. Dei-me mal com os truques de flirt do sector masculino francês, sabendo, munida de provas empíricas que o conceito de vergonha é de tal forma distinto do nosso, que cinco minutos depois tive de fazer a minha “danço-fuga a mãos e beijos franceses”. Before the Sunrise , é um filme de 1995, em que dois desconhecidos passam uma noite a vaguear pelas ruas de Viena. Limitam-se a conversas sem fim, a horas intermináveis de palavras trocadas, de sonhos, de opiniões, ou palhaçadas. Vivo há muito fascinada por este filme, por este encontro, e Paris parecia ser a cidade ideal para encontrar uma história assim. Acho que nunca a quis recriar. Afinal quantas noites não passei em longas conversas com amigos ou desconhecidos? Muitas, e todas me fascinam tanto como o próprio filme. Nunca me apaixone...

Bonne chance

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Parei de escrever porque todas as frases eram tristes, porque todas as noites ficava às voltas na cama com demasiadas perguntas. Terminou há três semanas e já parece ter sido outra vida. França fez-me chorar as lágrimas que tinha em depósito para uns três anos, fez-me gritar mais do que pretendia para toda a minha vida, comer demasiado chocolate, fez-me tremer de dúvidas e de medos todas as horas. França fez-me crescer! Há muito que decidi que em qualquer momento, por pior que parecesse, eu teria de encontrar uma forma de ser feliz. Por isso fui viajar! Viajei tantas vezes quanto pude, para todos os lados. Viajei por copos de vinho, horas de conversa e cabelo encaracolado. Feliz! Agora estou sentada no sofá da casa dos meus pais, há demasiadas horas, no dia em que não apanhei o avião para voltar, e tenho saudades, não das lágrimas, mas das viagens. Os planos? Falharam-me os planos, depois do A, falhou o B, depois do B, falhou o C... até ao N, um nódulo na tireóide, que p...
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Voltar a fazer as malas foi a melhor sensação das últimas semanas.  Claro que deixei coisas necessárias "em terra", nomeadamente um par de sapatilhas. Como consequências as minhas botas novas parecem ter sido utilizadas todos os dias durantes o último ano, devido aos longos passeios em Paris. Paris é edíficios enormes a cada esquina, longas caminhadas e sandes. Paris é a cidade dos amantes e dá vontade de encontrar um novo amor ao qual dar a mão à chegada à Torre Eiffel. París é lindíssima, e diz-nos o quão grandes os franceses se vêem a si próprios. Paris respira culturas e os meus sítios preferidos foram as livrarias e a jam session de jazz na cave de um bar perto do Moulin Rouge. Ao fim de dois dias de viagem fiquei sozinha. A solidão no meio da múltidão: a minha primeira lição de viagem foi que a solidão me deixa tímida, nervosa e com vontade de voltar a um lugar seguro. Não me safei assim tão mal, fiz dois "amigos" e arranjei mais uma casa onde dormir...