Livros que me fazem viajar
«As povoações do caminho eram tristes e geladas e nas
estações desertas apenas nos esperavam as vendedoras de toda a vida que
ofereciam pela janela da carruagem umas galinhas gordas e amarelas, cozinhadas
inteiras, e umas batatas nevadas que nos deliciavam. Ali senti pela primeira
vez um estado do corpo desconhecido e invisível: o frio. Ao entardecer, por
sorte, abriam-se de repente até ao horizonte as imensas savanas, verdes e belas
como um mar do céu. O mundo tornava-se tranquilo e breve. O ambiente do comboio
tornava-se outro.» Gabriel García Marquez
Viver para Contá-lo, Pág. 219
Arrancada da minha sala por um sonho lúcido vivido entre as
palavras dos livros! Curiosamente, não através da literatura de viagens, mas
pelos escritores do Chile e das Caraíbas, e o encanto latino que encontro nos
episódios das suas próprias vidas, e nos romances que as espelham.
Entre contos, romances e autobiografias, os livros latino-americanos
fazem-me sempre viajar. Idealizo a minha própria vida, as minhas aventuras, as
pessoas que encontro pelo caminho. Identifico-me! Acredito que aquele é o mundo
em que faço mais sentido, em que vou dançar a dança mais feliz, e ler os poemas
mais belos. Onde me realizo! Acredito que desde o mar das Caraíbas até à
Patagónia está escondida a inspiração divina dos escritores.
Mesmo depois de fechar o livro, continuo a viajar pela
descrição dos rios, sentindo a exaustão do moroso percurso, o contentamento com
a chegada da brisa nocturna e a vibração das músicas tocadas até de madrugada.
Imagino que exista um novo grupo de amigos a discutir poesia, à espera que eu
entre no café onde se encontram todos os dias pelas 6 da tarde, e que me sente
num canto a olhar e a escutar, passando de leitora a espectadora. Sentindo com
mais sentidos. Acredito que as boas amantes, morenas e corpulentas, com os maridos
no mar, ainda se perdem em loucuras, com sonhadores magros à procura de
desafiar o pragmatismo da vida.
Os livros são a minha máquina do tempo! Não posso pará-lo,
mas vivo na ilusão de um mundo à minha espera, pintado pelos artistas das
letras. Um mundo como os quadros, parado à espera da minha visita, para começar
a correr novamente, sair da tela e me envolver na sua magia.
E quando aterrar vou perceber que a minha viagem é
alimentada pela ilusão desse mundo que já não o é! Mas vou desejar ainda (fortemente!)
que um copo de vinho me una numa amizade eterna com um qualquer desconhecido,
de alma latina, com o coração na boca e um amor desmesurado pelo mundo das
pessoas.
Festa, amores tórridos, danças, lutas de rua, florestas,
estradas duras, viagens longas, calor, vinho tinto... Vou continuar a voltar a
esses livros, que não me fazem apenas desejar uma viagem que ainda está só no
papel, mas que me fazem acreditar a cada dia no fascínio da vida, contido em
cada poema rasgado, ou onda do mar.
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