A História de uma história
Qual é a história de uma história? O processo que a precede?
O escritor sentado ao sol na sua casa de campo (em França), enquanto
contempla a paisagem diante dos seus olhos. A escritora que passeia pelas ruas
agitadas da cidade (Paris, Londres ou Nova Iorque) e se deixa seduzir pelos sons
e cheiros que a invadem. O pôr-do-sol a fazer crescer palavras no coração.
Talvez tudo isso, cada um desses momentos já se tenha repetido
mil vezes com grande sucesso. Contudo, as histórias não esperam pelo cenário
perfeito, pelo momento ideal do dia e muito menos da vida, por paisagens idílicas
ou grandes viagens transformadoras. Os contos, os poemas ou grandes ou
pequenos livros (em tamanho e não só) não se dão a isso!
É sempre possível que isto seja só um problema meu, mas a
mim as ideias surgem-me a meio da noite sentada na sanita, esborrachada no metro
da afamada Lisboa, enquanto conduzo o meu Seat Ibiza ou nos olhos de um
desconhecido que abre a porta com um toque especial, no balneário do ginásio (é
a investigar se há alguma relação profunda com casas-de-banho neste relato!).
Há histórias que chegam repentinamente durante a noite e me
acordam em sobressalto. Quantas não duram apenas uns minutos porque trôpega de
sono me esqueço de como se pega numa caneta? Outras, não interessa onde se
revelam ou a que horas, ficam. Ficam e vão ficando, hora após hora,
insistentes, persistentes.
Palavras, cadeias de pensamentos que crescem, que se movimentam,
transformam. Ganham novos contornos, aparecem e morrem falas e personagens,
mudam de lugar. Reescrevem-se mil vezes mentalmente até ao momento que gritam tão
alto que nada mais há a fazer do que pô-las no papel. Vai-se resistindo, há
tanto para fazer neste mundo, mas elas são mais fortes.
Algumas querem-se assim, aos berros, tortas, com vírgulas
fora do lugar, cruas. Outras entram em novo processo, ficam para ser lidas e
relidas, editadas até por terceiros, olhadas de novas perspectivas. Ficam
riscadas e não se importam com isso, há um processo sublime a ser posto em marcha.
Impõem-se na folha e no pensamento. Sobrepõem-se ao que há de novo para nascer.
Há ainda histórias que vivem anos dentro daquele a quem calharam.
Amadurecem, crescem, mudam, e nunca ninguém sabe quando será a sua vez de gritar,
de sair, de ser palavra escrita, E outras que na folha são um termo, duas letrinhas,
ou três, e ainda assim fizeram a sua vontade vencer.
Não se escolhe ser escritor, ser constantemente surpreendido
por mundos, pessoas, amores e mortes que surgem do vazio. Pode-se aprender a
por vírgulas, a brincar com as palavras, a diferenciar o belo do foleiro, mas
isso é outra história.
Senti -me tocada e reconhecida nestas palavras, pois experimento a mesma inquietude.
ResponderEliminarObrigada Aline. Por serem suas, essas palavras são ainda mais especiais.
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