Mãos de pássaro - Parte III

A senhora disse-me que avisaram a minha mulher, e que a Rita já me vem buscar. Eu sou muito delicado com elas, foi o primeiro dia que aqui vim mas trataram-me muito bem. Não lhes decorei foi os nomes. Tenho aqui um livro comigo, algo me diz que já o li, mas não sei bem, sinto-me confuso. De qualquer forma, é muito bonito. São contos de um tal senhor chamado Luís Sepúlveda. Pela imagem parece-me relativamente novo, e vem do Chile. Não sei de onde vem o livro, mas diz na primeira folha, “Para o melhor avô do mundo, da tua neta Sofia.” Que sorte,
este senhor que tem uma netinha chamada Sofia.
O meu filho veio visitar-me. Por momentos pensei que era o meu irmão, é mesmo parecido com o tio, o cachopo. Os dois com olhos azuis, o cabelo sempre despenteado, e umas mãos muito robustas. Até no andar, meio saltitão, meio infantil para o corpo grande, mas nada pesado. E no feitio? Sempre a brincar, mas com um mau feitio teimoso por trás, escondido. Deu trabalho a criar, sempre a testar os limites e a perguntar todos os porquês. Parece-me que já não é tão cachopo assim, mas já perdi a conta aos anos. Já lhe disse que hoje durmo aqui, tenho um quartinho lá em cima, e não vale a pena o trabalho de me levar a casa. Ele disse que estava bem, que não havia problema. Contei-lhe algo que me deixou triste esta manhã, “César, ouvi umas senhoras dizerem que tenho Alzheimer. Não é verdade, pois não? Eu tenho-me sentido um pouco confuso, mas ainda não me esqueci do meu nome, António Simão Pinto Forrás, nem de vocês, nem da vossa mãe. Faz-me muita falta.”
Ele deu-me um abraço, e disse que me tenho portado muito bem, que tenho sido um valente. Parecia que estava a falar com uma criança. Gostei muito de estar com ele, e demos uma volta pelo jardim. Não me recordo ao certo da nossa conversa, mas disse-me que estava feliz. E tudo o que um pai pode desejar é que os seus filhos estejam felizes. Também me deixou umas molduras com fotografias para pôr na minha mesa-de-cabeceira. São dele, da irmã e dos meus netos. Acabou de sair, disse-me para comer tudo e para ficar descansado que tudo está pago. Ainda agora saiu, e já sinto um início de saudade.

*

Acordei e está um velho a dormir no meu quarto. Não sei onde estou, mas também tenho mãos de velho. Se calhar estou no hospital, e logo hoje que eu tinha combinado ir andar de bicicleta com o meu irmão Joaquim. Vem aí a enfermeira. “Senhora enfermeira, porque é que tenho mãos de velho? E porque é que estou aqui?”, “Você vive aqui! Ai essa cabeça…”, explicou. Vivo aqui? Vivo aqui? Como pode ser? Onde está a minha mãe? E o meu irmão? Roubaram-me a bicicleta. “Eu? Olhe, eu hoje ia andar de bicicleta com o meu irmão logo de manhã. Onde é que esconderam a minha bicicleta? Eu quero ir andar de bicicleta.”
Não contive as lágrimas. Eu quero tanto ir andar de bicicleta, e quero tanto estar com o meu irmão. “Vá, ele já vem andar de bicicleta consigo. Ela está lá em baixo. Já vamos buscá-la, mas agora é hora do banho.”, “Está bem! Diga-me só porque tenho mãos de velho.”


Inês, quero ser um pássaro

“Inês! Onde está a Inês?” Custa-me dizer Inês, não sei bem como fazer o som, mas tenho tantas saudades da Inês. A língua não me obedece, o som que sai da minha boca não é aquele de que me recordo vagamente. Desisto! Ninguém me diz onde está a Inês, e eu já não sei dizer o nome dela. Se calhar espera-me, só gostava de saber onde para arranjar uma forma de ir ter com ela. Mas também não sei onde estou, não reconheço nada à minha volta, as pessoas, o sítio. Tenho mãos de velho, e ainda ontem estava sol e eu fui à praia com a Inês.
            Tenho aqui a fotografia dela. Sinto-me sem forças. Espero que amanhã já me sinta com mais forças para ir ter com ela, mas não percebo porque não me vem visitar. Podia vir com a minha mãe. Sim, podiam vir as duas, e a Rita e o César. Vou ficar a olhar para a fotografia, já não tenho força. Inês, bela, forte. Cabelos cor de avelã, e olhos verdes. Inês, Inês, será que terei coragem de te convidar para dançar? Será que um dia te roubarei um beijo? “Inês, Inês. Onde está a Inês?”
            E se fôssemos pássaros, Inês?



Susana Mariano Anastácio

2015

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