Mãos de pássaro - Parte II
Quero
ser um pássaro
“Pai está pronto?”, “Rita vamos fazer
exames onde? Porquê?”, “Já lhe disse que são em Lisboa, e que foi o médico que
aconselhou.”, “Ah, sim. Desculpa, tinha-me esquecido.” Ela murmurou algo como
“desde há cinco minutos atrás”, não sabe que não se acrescenta o atrás. Não lhe vou dizer nada, está de
mau humor porque me esqueci dos exames e ainda não estava vestido quando
chegou. Não lhe contei que quando acordei tinha mãos de velho, e fiquei tão
assustado que estive um bom tempo a olhar para elas para ver se era verdade.
Às vezes parece que me esqueço que sou velho, tenho saudades da minha mãe como um menino pequeno, e passado uns minutos da Inês, como um homem feito. “Tenho saudades da tua mãe.”, “Eu também pai, mas não é dia para pensarmos nisso. Vamos tratar de si.”
Às vezes parece que me esqueço que sou velho, tenho saudades da minha mãe como um menino pequeno, e passado uns minutos da Inês, como um homem feito. “Tenho saudades da tua mãe.”, “Eu também pai, mas não é dia para pensarmos nisso. Vamos tratar de si.”
“Lisboa, não é?”, “Vê, quando me ouve
lembra-se das coisas.” E sorriu.
*
Não para de me fazer perguntas, o raio da
rapariga. Onde vivi, onde nasci, que idade tenho, que idade tem o meu filho
César, quantos netos. Um questionário infindável desde que saímos do hospital.
Não me consigo bem recordar do que o médico disse, mas a Rita já me relembrou
que farei mais exames. O médico também me fez um questionário assim. Quando me
engano, não entendem que a memória já falha.
Olha, uma cegonha a fazer um ninho! E há
mais. Tão bonito. Gosto de pássaros, quando era pequeno fingia que voava como
eles. Quero ser um pássaro. “Quando é que a mãe morreu?”, perguntou ela.
A fotografia
A Rita e o César disseram-me que tenho de
ir para um lar. No último mês chamei Inês à Rita quatro vezes, contou ela,
esqueci-me de dormir três noites, li 35 livros, alguns repetidos, e comprei
três vezes o mesmo livro ao senhor do quiosque do centro da cidade. Apetece-me
chorar, e eu não sou um homem de muitas lágrimas, mas sempre imaginei a minha
velhice calma, e feliz, na minha casa até ao dia de partir para o céu. Rezei
muito, não sei se o céu existe mesmo, mas pelo sim pelo não, precavi-me. E fui
bom, um bom pai, um bom marido, e agora tenho mãos de velho e vou para um lar.
O César vive longe, e a Rita tem três filhos. É uma mulher de coragem, a Rita,
mas não há quarto para mim por lá. E a minha casa, e as minhas coisas? “Só se
puder levar a fotografia do meu casamento para pôr na mesa-de-cabeceira, tal e
qual como aqui em casa. – foi a única resposta que consegui dar.”
Se ao menos a Inês estivesse comigo, ela
cuidava de mim. Ela cuidava do mundo inteiro.
Confusão
Não sei onde estou, mas pelo menos há
muitos livros. Vou buscar um enquanto espero para ver o que é que se passa
aqui. Olha, estão a chamar-nos para o almoço. Não tenho carteira, não tenho
dinheiro. E agora o que é que eu faço? A senhora está a mandar-me ir para o
restaurante comer, não me lembro de ter saído de casa para vir ao restaurante.
E são tantos velhos, será um restaurante para velhos? Eu não sou velho, não sei
o que estou a fazer aqui. Sei é que hoje a minha mãe não me deu dinheiro e não
posso pagar.
A senhora da bata branca disse-me para
comer. Diz que o meu filho pagou tudo. O meu filho? Perguntei à senhora porque
é que tenho mãos de velho, e ela disse que já passava. O meu filho? Ela
continua a garantir-me que ele pagou tudo, e que posso comer à vontade, mas por
via das dúvidas, vou comer pouco, não lhe vão elas cobrar mais a seguir. “Ah! O
César, o meu filho César. E a Rita? Onde está a Rita?” Não me ouviram. Estas
senhoras andam muito atarefadas.
*
Quero ir para casa, mas não sei o caminho.
A senhora disse-me que a minha filha me vem buscar. A Inês! Não, a Inês é a
minha mulher, a Rita, a Rita é que me vem buscar. E a Inês deve estar lá em
casa preocupada pela minha demora, e a Rita que nunca mais chega. Tenho de
saber o que se passa.

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