Mãos de pássaro - Parte I

Mãos de velho

As paredes são brancas e parecem pintadas de novo. Há um grande armário do lado direito, meio aberto, consigo ver umas calças de homem penduradas. O quarto tem duas cadeiras e uma televisão. Não me lembro de termos televisão aqui, e ia jurar que as paredes eram azuis. Vou chamar pela minha mãe, não sei para onde me trouxe. “Mãe! Mãe.” Ela não me responde, e tenho mãos de velho. Não sei porque tenho mãos de velho aos 10 anos, e não sei quem é o casal da fotografia que tenho ao lado da cama, mas a cara da mulher diz-me alguma coisa, e o homem é muito parecido comigo. Mas não é o meu pai, e aquela não é a minha mãe.
“Mãe! Mãe!” Continua sem me responder. Vou-me levantar e tomar um banho, não sei bem que dia é hoje, mas é capaz de ser dia de ir à missa. A casa é bonita e acolhedora. Sinto-me bem aqui, apesar das minhas mãos de velho. A porta abriu-se, vou ver se é a minha mãe. “Bom dia, pai! Como está hoje?”, Olha, a minha filha Rita, está tão grande. “Olá Rita! Estou bem, tenho mãos de velho, mas estou bem. Sonhei que ainda tinha 10 anos.”; disse-me “Claro que tem mãos de velho, pai. Queria ficar novo para sempre?”
Nem me deixou responder, mandou-me tomar um banho enquanto me prepara o pequeno-almoço. Afinal é quarta-feira, não há missa hoje, e vamos ao médico. A minha filha vai-me levar ao médico, está mesmo grande e bonita, e eu com mãos de velho
 “Parece-me que, no fundo, o médico quis dizer que já tive melhores dias, sabes? Aquela conversa toda sobre mais exames… Quando ele tiver a minha idade vai perceber, não estou maluco, estou só cansado dos anos.”, confessei, ao regressar. “Pai, o médico não disse que estava maluco, você é que me chamou Inês durante a consulta. Inês era o nome da mãe.”
Não percebem nada, os jovens. O meu filho mais novo passa a vida a esquecer-se das palavras e ninguém lhe diz nada. Ele lá se queixa, diz que trabalha demais, e que anda cansado. Cansado ando eu, com estas pernas de velho, e estas mãos de velho, lembro-me tão bem de quando fazia longos passeios de bicicleta aos sábados à tarde.
“Pai! Está a sonhar acordado. Quer jantar lá em casa hoje?” Ainda falta muito tempo para o jantar. Quero ir para a minha casa, ler um livro. Na minha altura poucos rapazes gostavam de ler, queriam todos jogar à bola. Eu também jogava, mas era fraco com a bola, era bom para correr e para a bicicleta. Lia às escondidas! Depois aprendi que os homens respeitáveis gostam de ler livros, e passei a ter orgulho no meu gosto pela leitura. Agora já não vou ao café ler livros, só o jornal, e só às vezes. “Não filha, obrigada, mas quero ir para casa ler.”

*

Devo-me ter esquecido de jantar, e de dormir. Senti fome, e ao levantar-me percebi que o sol está quase a nascer. Sei que não se está a pôr, porque se põe do outro lado da casa. Está mesmo a nascer. Não me lembro de me ter acontecido isto antes. Vou comer qualquer coisa.
Tenho saudades da Inês, certamente que agora me faria um leite quente e uma sandes. As sandes dela eram perfeitas. E era ela quem me ajudava com as palavras. Nos últimos anos, às vezes esquecia-me do significado de uma ou outra palavra, e ela sabia sempre. Sabia sempre… Vou dormir.
Agora que me deitei lembrei-me que tinha de ir comer. A Inês já não está cá, por isso vou ter de me levantar novamente. Já é de manhã, e são horas de comer. Volto a reparar que tenho mãos de velho.”



Comentários

  1. Que dom para as palavras. Descreves os sentimentos como se os estivesses a viver. E deixas o leitor sentir o que o personagem poderia sentir.

    Oh, como eu não quero acordar um dia e ter mãos de velho...

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    Respostas
    1. Obrigada!

      "O poeta é um fingidor
      Finge tão completamente
      Que chega a fingir que é dor
      A dor que deveras sente
      (...)"

      Fernando Pessoa

      Ele tinha razão :)

      Ninguém quer. Para te fazer sorrir, no outro dia, uma senhora de 91 anos, muito triste, disse: "Ai, que agora é que estou a ficar velha."

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    2. Obrigada!

      "O poeta é um fingidor
      Finge tão completamente
      Que chega a fingir que é dor
      A dor que deveras sente
      (...)"

      Fernando Pessoa

      Ele tinha razão :)

      Ninguém quer. Para te fazer sorrir, no outro dia, uma senhora de 91 anos, muito triste, disse: "Ai, que agora é que estou a ficar velha."

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  2. Absolutamente extraordinário o realismo !!!

    Fantástico!

    Cumprimentos,

    José Bilro

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