6 meses
Há seis meses estava deitada numa cama a ver a enfermeira preparar as agulhas e a pensar que ia doer. Ignorava completamente todo o processo, tinha deixado os meus pais e o meu namorado no corredor, a minha mochila estava num cacifo do hospital, e a enfermeira dizia que não custava nada. "Não custa nada. Só preciso de respirar devagar e profundamente."
Quase me neguei a ser operada quando me disseram que tinha de assinar papeis. "Como posso permitir que me tirem um órgão, se nem percebo o porquê?" Veio a médica, cheia de cuidados, disse-me que podia pensar mais uns dias, não havia problema. Não sei o que me levou a dizer que sim, e deve ter saído sem grande certeza, porque tive de o repetir várias vezes, para a médica, e para dentro, para mim.
"Não custa nada."
Lembro-me de sentir o enjoo quando me deram a anestesia, e de sentir que o meu corpo ia explodir. Quando acordei só conseguia vomitar. Consegui virar-me de lado e adormeci.
O que custou mais foi acordar e saber que a minha mãe e o meu namorado já tinham vindo para me visitar, e que eu estava a dormir. "Porque não me acordaram?" Por muito que precisasse de descansar, precisava do meu porto seguro, daqueles que me encheram de mimo e compreensão, que merecem todos os meus sorrisos. Fiz um esforço enorme para não voltar a adormecer, mas tinha medo que não voltassem. Não conseguia parar de olhar para a porta, senti-me como uma criança pequena à espera dos pais depois da escola.
Chegaram, e levaram-me ao quarto onde ia dormir. Não consigo descrever a alegria de os ver, e não queria que o tempo passasse, não queria que fossem embora.
Não dormi. Passei a noite toda a olhar para a janela. Não me lembro de pensar, ou de ter medo. Lembro-me de me sentir fria, mas forte. Ainda não me conseguia levantar, tinha dores no pescoço, mas algo estava bem.
No dia seguinte, quando a médica me veio visitar, estava sentada a estudar para a faculdade, ou a tentar pelo menos. Fui autorizada a comer e a beber água, tiraram-me sangue, deram-me injecções. A rotina.
O segredo para o tempo passar é não pensarmos nele, limitar-mo-nos a ser, não ansiar pela rapidez dos dias normais.
"Hora do banho!" Deixaram-me dentro de um balneário, com os avisos de que não poderia molhar o penso, e tinha de ter cuidado com o dreno. Despi-me com dificuldade e olhei para o meu corpo. O penso ocupava-me o pescoço e todo o peito. Não reconheci o meu cheiro, nem a cor da minha pele. Tive noção da minha fragilidade, da lentidão dos meus movimentos. Tomei banho, e vesti-me. Com roupas no corpo ficamos mais fortes.
Fui para casa muito rapidamente, cheia de recomendações e cuidados. Recordo aquela semana como uma das mais fáceis da minha vida. Tinha dores, era difícil dormir, estar sentada. Os comprimidos ainda estavam longe de terem as doses certas para o meu corpo. Sempre que me vestia para descer à rua, tinha de descansar antes de sair de casa. Só comia quantidades pequenas, e moles. Mas durante uma semana consegui libertar-me de todos os anseios, não esperei, nem esperavam mais nada de mim do que por-me boa, cuidar de mim.
Nos seis meses que se seguiram, passaram-se muitas coisas. Provavelmente a mais pesada saber que era cancro, e a ida ao IPO. Uma vez lá dentro pensei que tive a sorte de ter o cancro menos agressivo de todos, que seria injusto para tantas pessoas ter pena de mim própria, estar triste, nervosa. A mais feliz, saber que não tinha metástases, que os 12 meses em que a minha biópsia esteva guardada num armário sem ser aberta, e os meus telefonemas para o hospital a pedir o resultado sem resposta, não tiveram consequências mais graves.
Não mudava um único passo dos últimos seis meses. Nem em mim, nem nas pessoas que me acompanharam. Fui muito feliz, e na maior parte do tempo passei por tudo de forma leve, quase a levitar. Tive a sorte de aprender das lições mais difíceis, com muitas almofadas, com cabeçadas suaves na parede.
Gostava muito de ainda ter a minha tiróide, isso sim. Quero muito que o meu corpo não se volte a virar contra mim. Não posso olhar para ele como um inimigo, mas como o maior dos meus aliados. É um aliado que fala muito baixinho, é preciso estar atento aos pequenos sinais, aos seus sussurros.
Quase me neguei a ser operada quando me disseram que tinha de assinar papeis. "Como posso permitir que me tirem um órgão, se nem percebo o porquê?" Veio a médica, cheia de cuidados, disse-me que podia pensar mais uns dias, não havia problema. Não sei o que me levou a dizer que sim, e deve ter saído sem grande certeza, porque tive de o repetir várias vezes, para a médica, e para dentro, para mim.
"Não custa nada."
Lembro-me de sentir o enjoo quando me deram a anestesia, e de sentir que o meu corpo ia explodir. Quando acordei só conseguia vomitar. Consegui virar-me de lado e adormeci.
O que custou mais foi acordar e saber que a minha mãe e o meu namorado já tinham vindo para me visitar, e que eu estava a dormir. "Porque não me acordaram?" Por muito que precisasse de descansar, precisava do meu porto seguro, daqueles que me encheram de mimo e compreensão, que merecem todos os meus sorrisos. Fiz um esforço enorme para não voltar a adormecer, mas tinha medo que não voltassem. Não conseguia parar de olhar para a porta, senti-me como uma criança pequena à espera dos pais depois da escola.
Chegaram, e levaram-me ao quarto onde ia dormir. Não consigo descrever a alegria de os ver, e não queria que o tempo passasse, não queria que fossem embora.
Não dormi. Passei a noite toda a olhar para a janela. Não me lembro de pensar, ou de ter medo. Lembro-me de me sentir fria, mas forte. Ainda não me conseguia levantar, tinha dores no pescoço, mas algo estava bem.
No dia seguinte, quando a médica me veio visitar, estava sentada a estudar para a faculdade, ou a tentar pelo menos. Fui autorizada a comer e a beber água, tiraram-me sangue, deram-me injecções. A rotina.
O segredo para o tempo passar é não pensarmos nele, limitar-mo-nos a ser, não ansiar pela rapidez dos dias normais.
"Hora do banho!" Deixaram-me dentro de um balneário, com os avisos de que não poderia molhar o penso, e tinha de ter cuidado com o dreno. Despi-me com dificuldade e olhei para o meu corpo. O penso ocupava-me o pescoço e todo o peito. Não reconheci o meu cheiro, nem a cor da minha pele. Tive noção da minha fragilidade, da lentidão dos meus movimentos. Tomei banho, e vesti-me. Com roupas no corpo ficamos mais fortes.
Fui para casa muito rapidamente, cheia de recomendações e cuidados. Recordo aquela semana como uma das mais fáceis da minha vida. Tinha dores, era difícil dormir, estar sentada. Os comprimidos ainda estavam longe de terem as doses certas para o meu corpo. Sempre que me vestia para descer à rua, tinha de descansar antes de sair de casa. Só comia quantidades pequenas, e moles. Mas durante uma semana consegui libertar-me de todos os anseios, não esperei, nem esperavam mais nada de mim do que por-me boa, cuidar de mim.
Nos seis meses que se seguiram, passaram-se muitas coisas. Provavelmente a mais pesada saber que era cancro, e a ida ao IPO. Uma vez lá dentro pensei que tive a sorte de ter o cancro menos agressivo de todos, que seria injusto para tantas pessoas ter pena de mim própria, estar triste, nervosa. A mais feliz, saber que não tinha metástases, que os 12 meses em que a minha biópsia esteva guardada num armário sem ser aberta, e os meus telefonemas para o hospital a pedir o resultado sem resposta, não tiveram consequências mais graves.
Não mudava um único passo dos últimos seis meses. Nem em mim, nem nas pessoas que me acompanharam. Fui muito feliz, e na maior parte do tempo passei por tudo de forma leve, quase a levitar. Tive a sorte de aprender das lições mais difíceis, com muitas almofadas, com cabeçadas suaves na parede.
Gostava muito de ainda ter a minha tiróide, isso sim. Quero muito que o meu corpo não se volte a virar contra mim. Não posso olhar para ele como um inimigo, mas como o maior dos meus aliados. É um aliado que fala muito baixinho, é preciso estar atento aos pequenos sinais, aos seus sussurros.


Parabéns fofinha. Ainda bem que pelo menos tu conseguiste superar! Fico feliz por ti. Um beijinho muito grande.
ResponderEliminarGuida
Fazes-me chorar. Mas isso é bom!
ResponderEliminarEstou do lado de cá, de quem tem as agulhas nas mãos. Todos os dias eu digo: "Respira fundo. Descontrai. Vai doer um pouco mas passa depressa." Mas o grande problema não é a dor. É o sofrimento. A dor controla-se com medicação, mas o sofrimento é mais difícil. Sofrimento de não ter autonomia, de não ter força, de estar vulnerável, de não saber como será o futuro. E posso dar o meu melhor amparo para ajudar a minimizar este sofrimento, mas por todo o lado existirá alguém que precisa outra vez do colo da mãe, da mão forte do namorado...
E enquanto alguém estiver em sofrimento, ainda terei muito trabalho para fazer. Será errado sonhar em curar a humanidade inteira?
Obrigado por me tirares algumas lágrimas. Soube bem.
Nunca será errado sonhar!
EliminarObrigada :)
Nunca será errado sonhar!
EliminarObrigada :)