Eles - Mia Couto

Eles

Desde que chegaram
ficou sem repouso a baioneta
e os chicotes tornaram-se
atentos e sem desleixo

Lançaram fogo
à dolorida geografia
esquartejando montanhas
secaram fontes e rios
na memória dos seus crimes
se anichou a seta da vingança

Trouxeram-nos a luta
sem trégua
e da carne do vencido,
durante séculos,
fizeram silêncio e cinza

Na esperança que nos restava
escavaram um cego labirinto
instalaram pontual a humilhação

para que os nossos sonhos
não tivessem residência
e para que não déssemos conta
de que havíamos nascido
os nossos nomes nos retiraram

Quanto tempo demorou esse tempo
quantas palavras sepultámos nesse silêncio
em quantos bares se esfumou a nossa
revolta
em quantos planetas sem luz
tivemos que esperar por uma bandeira?
Nós éramos tribo
carvão aceso nos altos-fornos
e pelo gesto escravo em nossas mãos
se poliram os minerais
se alinharam caminhos-de-ferro
se uniram pontes
fazendo morrer abismos e torrentes
transpiram de vapor as grandes fábricas
e uma emaranhada teia
recobriu a nossa dimensão
despovoando-nos
adiando a nossa vida
por incontáveis vidas

Guerreiros antigos
desceram da residência das águias
e com os pés despidos
untaram a terra de chamas
para que de esperança e coragem
fosse temperado o tempo por vir

Nos idiomas vários
enrolámos sílabas submersas
clandestinos rios turbulentos
enroscaram-se nos lagos adormecidos

Colocámos o sonho no arco
e dele fizemos flecha certeira
e transportámo-nos no vento
como se fôssemos a semente derradeira

Para sermos homens
desocupamos o silêncio
e com um firmamento de esperança
cobrimos o rosto ferido na nossa Pátria

Dezembro 1979
Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas (1983)
















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