Ainda existem marinheiros? III Juventude

“Isto começa a valer a pena… - pensei eu. É extraordinário! Como irá isto acabar? Ó juventude.” (Jospeh Conrad, Juventude, 1902)


Há cerca de um ano que ando para descobrir se a ausência de medo é característica de marinheiros ou de juventude. Tenho vontade de colocar um inquérito, fazer uns cálculos, e encontrar umas respostas.
O marinheiro Vala garantiu-me que não tinha medo
, e a personagem de Conrad vive para aventura e o risco. No entanto, um para-quedista, a quem demos boleia há uns dias, falou-nos da sua viagem marítima até Moçambique nos tempos da guerra colonial, como o mais terrorífico dos cenários. Uns não têm medo de cair do céu, e outros não têm medo de morrer no mar, une-os a juventude.

- Tem mais perguntas?
- Sim. Nas noites de tempestade teve medo de morrer no mar?
- Nunca tive medo de morrer. As ondas eram maiores que um barco, e agarrávamo-nos a um cabo que atravessa o convés, e lá vinha a vaga.
Nos Açores apanhei mar mau, aquilo era terrível. Mas não havia tempo para ter medo… Quantas vezes estava eu sentado na cadeira do cinema, e nos chamavam? Era saltar e lá ia eu fazer o serviço! Ajudar os barcos apanhados pelas tempestades. Mas era duro aquele mar, não faz ideia.

“ – De tudo quanto existe de maravilhoso no mundo, julgo nada se comparar ao mar, ao mar em si próprio – ou será que à juventude? Quem saberá?” (Jospeh Conrad, Juventude, 1902)

Não serei certamente eu a descobrir. Mas, antes de sair perguntei:

- Marinheiro Vala, depois de tantas décadas, não tem saudades do mar?

- Menina, menina! Por pouco não perdi a minha sobrinha para o mar. Há que ter muita cautela com ele. Gosto de o ver de longe.

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