Aprender a brincar
Tinha
um pato quando era pequenina, o Pato Donald que me consolava quando
não havia leitinho para eu beber ou a minha mãe não me podia dar
miminhos. Um dia decidi que não queria ser mais criança e pedi à
minha mãe para deitar o pato fora. Não me lembro de ter voltado a
sofrer tanto como naquela noite, a primeira vez que senti saudades e
um vazio tão grande, como o de outro qualquer primeiro amor. Tinha 3
anos!
A
partir daí fiquei crescida, como qualquer criança. Risquei a lista
telefónica dos meus pais com bolinhas a imitar as palavras e os
números, sentava-me bem no meio da sala a ouvir a conversa dos
adultos e fazia perguntas sem fim. Pintava, também, mas não me
lembro de brincar. A única vez que pedi uma boneca para o Natal era
a boneca das madeixas, e o único objectivo era conseguir fazer
madeixas no meu próprio cabelo.
Logo
que deixei de perceber os desenhos animados em inglês (sim, que eu
estou convencida que até certa idade compreendia todas as línguas
do mundo) e vi que havia letras a aparecer no ecrã da televisão,
pedi à minha mãe para me ensinar as letras, e a ler.
Isto
tudo antes dos 6!
“Que
tonteria!” digo a mim própria agora que não quero ser grande, mas
que o mundo quer que eu seja grande.
Sempre
tive jeito para crianças, e sempre adorei tomar conta delas, mas
preferencialmente os brinquedos ficavam de fora.
Daí
que quando me comprometo a fazer voluntariado com um menino com
autismo, de acordo com o Programa Son-Rise, o momento em que percebo
que vão existir brinquedos envolvidos é o “momento de pânico”.
Entro
no Play Room pela primeira vez e existem duas prateleiras
cheias de brinquedos. No meio dos brinquedos há livros e
instrumentos, o que me tranquiliza, mas não é que possa impingir à
criança os brinquedos de que gosto. Quem manda é o Jonas, quem
escolhe os brinquedos é ele.
Cubos,
lagartixas, legos, coisas que se enfiam em coisas, copos. O que raio
é suposto eu
fazer com copos? Como se brinca com uma caixa?
Já
todos ouvimos dizer que o voluntariado, mais do que dar é receber. O
Jonas ensinou-me que brincar com cubos pode ser enfiá-los nos pés,
ou bater com eles um no outro e fazer “música”, que desmanchar
pirâmides é giro, e que podemos girar no chão qualquer objecto. O
Jonas ensina-me a brincar um pouco mais todas as semanas, e não
podia estar mais agradecida por alguém me ajudar a ser criança
outra vez.
O
pânico ainda não desapareceu oito meses depois da primeira sessão,
mas o meu professor é paciente. Os brinquedos trazem instruções,
mas há um potencial muito maior em cada um deles, um potencial tão
grande quanto o número de pessoas que brincar com ele, se tiverem
coragem para sair das leis das caixas.
Agora
muitas vezes sou eu que me perco com o brinquedo novo que apareceu na
prateleira, e que tenho de me relembrar que tenho um papel a cumprir.
Um dia pus-me a pescar peixinhos com um íman, e no outro insisti em
montar as máquinas até ao fim quando já me puxavam para o próximo
jogo. Adoro legos, dá para construir coisas muito altas e cheias de
cores. Mas continuo a preferir os instrumentos e os livros.
Agora
faço brinquedos em casa. Quem diria?
Vale
a pena ser pequenino outra vez, mesmo que só por umas horas.
Olá Susana. Passei por aqui. Parabéns. (Henrique)
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