Os loucos do metro


                Não se pode sorrir, não se pode dançar, cantar, há roupas que convém não levar à rua, livros que não se devem ler, olhar para os outros é feio e apontar então, ainda pior. Pedir desculpa é raro, dizer “obrigada” caiu em desuso, e qualquer expressão que não seja uma onomatopeia é sinal de que algo não está certo com a pessoa que a pôs em prática. Ficamos todos muito sérios, desviamos o olhar, damos risos nervosinhos sempre que alguém se atreve a contrariar estas regras básicas para se andar na rua. Mesmo para dar um “Bom dia” à pessoa que todos os dias vai no autocarro, são necessários meses e meses de viagens, e algum acontecimento casual que obrigue à troca de mais de três frases.
                Perante estas e tantas outras regras que ao não serem cumpridas são um enorme atentado ao nosso conforto, um rapaz sozinho a cantar no metro é quase caso de polícia. Então se o rapaz demonstrar sinais de diferença (ou deficiência) o desconforto é total: entre os que têm pena, os que não conseguem controlar o riso e os que abanam a cabeça, sempre que olhares se encontram há um encolher de ombros, uma forma de demonstrar desaprovação, de incompreensão. Não podemos aceitar tais comportamentos. Deviam ser todos calados!
                Todos os que cantam no metro deviam ser calados, causam desconforto. Não porque cantem mal, mas porque têm a coragem de cantar. Até um pedinte cego nos causa menos desconforto.
                Enquanto isto acontece sorrio, e penso, “Quem me dera ter coragem de cantar contigo rapaz.”
                Quantas vezes não temos vontade de dançar, de cantar, de sorrir às pessoas? Quantas vezes não sentimos vontade de chorar, de soluçar, de que alguém nos dê a mão?
                Que alguém nos salve. Que os loucos continuem a existir e a cantar nos metros.



22.05.2013  

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