Estações
Do
ano, da vida, estações de comboio.
Paragens
raras ou frequentes, únicas ou gastas pelo cansaço dos dias.
Estações
Da
fruta: das azedas laranjas, dos doces morangos, das grandes e vermelhas
melancias.
Estações
Do
metro.
Estações.
Vida.
Quantas
vidas se cruzam em todas as estações? Quantas perguntas que não se fazem, ou
que ficam por responder? Nas estações frias e cinzentas, olho em volta
assustada, tentando escapar das pessoas que me assustam com o seu ar sombrio,
como o Inverno me assusta quando gélido entra nos meus lençóis todas as noites
e me arrefece os pés. Sou das estações luminosas e de fruta madura.
Com
o tempo até as meras estações ganham um significado. Com o tempo esta cidade
fica cheia de memórias sobrepostas, anos das maiores alegrias e de rios de
lágrimas, uma adolescência tardia de emoções e pele arrepiada. Que esta cidade
deixa-nos apaixonados pelo amor e pela tristeza, que dela não sai ninguém
sem levar saudade.
E
as minhas estações misturam-se inevitavelmente com os percursos da vida, ganham
sentimentos.
A
estação da minha primeira casa, que trocava sempre que podia pela estação do
autocarro e onde fui perseguida por indianos. A estação onde encontrei a única
pessoa que me tentou assaltar e a qual tentei agredir de seguida. A estação da
faculdade.
A
estação que durante três anos significava diversão: depois dos jantares, dos
copos, das danças perdidas entre o escuro dos quartos, a solidão dos cigarros
fumados à janela, a hora de sair, a hora de apanhar o último metro para chegar
ao Bairro Alto. Correrias, muitas vezes por causa das horas, e outras tantas
porque já víamos o carro da polícia (mais uma queixa dos vizinhos). Corridas
porque (não sabíamos) mas três anos passam demasiado depressa.
A viagem, cheia de canções sem sentido, de piadas de bêbedos, de pessoas irritadas com a nossa presença, com a nossa juventude e alegria. E depois a saída do metro, com os seus imponentes seis lances de escadas, que teimavam em nunca funcionar todos, e que nos obrigavam a exercitar as pernas, que doíam sempre, mas sempre no dia seguinte (talvez porque o Bairro Alto é a subir, e só nos apercebemos disso quando lá passamos sóbrios).
A viagem, cheia de canções sem sentido, de piadas de bêbedos, de pessoas irritadas com a nossa presença, com a nossa juventude e alegria. E depois a saída do metro, com os seus imponentes seis lances de escadas, que teimavam em nunca funcionar todos, e que nos obrigavam a exercitar as pernas, que doíam sempre, mas sempre no dia seguinte (talvez porque o Bairro Alto é a subir, e só nos apercebemos disso quando lá passamos sóbrios).
E
agora, são oito da manhã! Essa mesma estação está atolada de gente, grande, séria, bem
vestida, sóbria. E agora eu também devia ser grande, séria e bem vestida, mas
garanto que estou sóbria. Já não estou a caminho do Bairro Alto com os meus
amigos da universidade, já não é de noite e não me vou divertir, não é
quinta-feira à noite. É a terrível e temível segunda de manhã e eu vou
trabalhar.
(Ironias)
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